Além dos altos salários, os parlamentares ainda têm direito a uma série de outras vantagens, tais como ajuda de custo, cota mensal para despesas diversas (o chamado “cotão”), apartamento funcional ou auxílio-moradia, verba de gabinete para contratar até 25 funcionários e reembolso de despesas médicas. Alguns têm à sua disposição carros oficiais, com motorista.

O “cotão” pode ser usado para uma infinidade de despesas: passagens aéreas, fretamento de aeronaves, alimentação, serviços telefônicos e postais, combustíveis e lubrificantes, consultorias, divulgação do mandato, aluguel e demais gastos com escritórios políticos, assinaturas de publicações, TV e internet, serviços de segurança etc. Os telefones dos imóveis funcionais, de uso livre e sem franquia, ainda ficam de fora dessa cota. Em levantamento do sítio Congresso em Foco, de março de 2016, somente os Deputados Federais chegam a custar mais de um bilhão de reais por ano aos cofres públicos[1]. Os parlamentares também tinham direito à aposentadoria após meros oito anos de contribuição, situação que, felizmente, mudou em 1997[2].

A chanceler alemã Angela Merkel, eleita a personalidade do ano de 2015 pela revista “Time” e considerada, atualmente, a mulher mais poderosa do mundo pela “Forbes”, ainda mora no mesmo apartamento de sempre com o marido, compra entradas para a ópera com o próprio cartão de crédito e entra no teatro junto com todos os outros espectadores, sem nenhum esquema especial. A seu turno, nossa presidente, mesmo afastada, ainda mantém um séquito de duzentos funcionários e tem cinco veículos, onze seguranças e uma ambulância à sua disposição. Em episódio marcante durante o exercício do cargo, viajou a Paris com uma comitiva de novecentas pessoas, hospedadas em hotéis de luxo e com gastos bancados por cartões corporativos[3].

Enquanto isso, os políticos suecos ganham pouco, andam de ônibus e até mesmo de bicicleta, cozinham sua própria comida, lavam e passam suas roupas e são tratados por “você”. Em países como a Suécia, os representantes do povo são efetivamente eleitos para servirem à população, e não para se servirem de seu cargo visando ao enriquecimento ou à obtenção de vantagens pessoais[4]. O que ajuda a explicar, também, os baixíssimos níveis de corrupção existentes por lá[5].

As mordomias destinadas aos parlamentares brasileiros, além de representar significativo impacto sobre as finanças públicas, têm outra consequência ainda mais nefasta: promovem o distanciamento entre os políticos e os cidadãos, desconectando os primeiros da realidade vivenciada, no dia a dia, pelos últimos, e contribuindo para diminuir a efetividade do controle social exercido pela população.

Ademais, essas benesses desvirtuam o verdadeiro motivo que deveria levar as pessoas a se dedicarem à vida pública: um pensamento exclusivamente voltado para o bem da coletividade, com o olhar e o agir repletos de altruísmo, vocação e das melhores intenções. Como consequência, atrai-se para a política indivíduos egoístas e mesquinhos, mais preocupados com seus próprios ganhos e interesses do que com o bem-estar da população que representam.

Assim, acabar com todas essas regalias, e o quanto antes, é medida que se impõe. E olha que nem vou entrar aqui no mérito do foro privilegiado, outra excrescência que, igualmente, deveria acabar.

[1] http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/lista-todos-os-salarios-e-beneficios-de-um-deputado

[2] http://www2.camara.leg.br/comunicacao/assessoria-de-imprensa/aposentadoria-de-deputados

[3] http://blogs.odiario.com/bahr-baridades/2016/06/11/mordomias-dos-dirigentes-no-pobre-brasil-e-na-rica-europa

[4] Wallin, Claudia. Um país sem excelências e mordomias. São Paulo: Geração Editorial, 2014. http://www.claudiawallin.com.br/portfolio-item/sem-corrupcao-nem-mordomias-os-politicos-suecos-sao-eleitos-para-servir

[5] http://pragmatismo.jusbrasil.com.br/noticias/131294429/o-segredo-da-suecia-para-combater-a-corrupcao